Mania de ler contos.

Este post escrito em 7 de maio de 2015 no meu blog original, http://caleao.net (descontinuado), e migrado para o Medium.com em 9/4/2018.
Alguém tinha dúvida de que este blog seria atualizado de vez em nunca? Eu não. Porém, resolvi escrever uma estranha situação que ocorreu hoje e sua relação com o que tenho feito nos últimos dias.
457, A BARCA DE CARONTE.
Entrei no ônibus que pego para voltar do trabalho. Daqueles ônibus horríveis e depredados, típicos da zona norte. Muita gente cansada e mal encarada. Todos doidos para chegar em casa para descansar, assim como eu. Seria a viagem cotidiana que faço nesses ônibus macabros que trafegam pelo trânsito caótico e desagradável do Rio de Janeiro, se não fosse a persona inusitada do motorista. Quando olhei para a cara dele não acreditei. Era o Stephen King. Isso mesmo. O pior não era isso, agia como uma pessoa perturbada. A situação começou a ficar assustadora quando olhei para os passageiros e os seus rostos começaram a se deformar, como lava derretida. As carnes foram se decompondo. Brotou um cheiro insuportável, misto de enxofre e carne queimada. Quando olhei para fora do ônibus, procurando uma saída, estava tudo ardendo em brasas! O fogo do inferno ardia em todos os lados.
- Ei! Com licença! — Reclamou uma senhora ranzinza que estava atrás de mim.
E tudo voltou ao normal. O motorista era só um cara parecido com o Stephen King.
Pois bem, até que o ocorrido deu um conto. Ou pelo menos a tentativa de um, já que sempre fui péssimo para escrever. Pelo menos a situação é verídica. É claro que o papo das ‘pessoas derretendo’ e ‘fogo do inferno’ foram frutos da minha imaginação. Talvez isso se explique devido às dezenas de contos fantásticos que li nas últimas semanas. Pois é, estou com mania de ler contos. Tenho lido Edgar Allan Poe, Horácio de Quiroga, Franz Kafka, entre outros. O objetivo dessa pesquisa/leitura é coletar material para um projeto pessoal que espero lançar até o final desse ano. Trata-se de um podcast no qual farei a locução de contos clássicos e modernos da literatura fantástica.
De modo inesperado, os contos que mais me motivaram a dar prosseguimento a este projeto foram os de um autor jovem brasileiro que conheci esses dias. L. R. Riesemberg. Os contos dele são excelentes! Devo dizer, tão legais quanto os clássicos que tenho lido. Me identifiquei muito com algumas situações descritas nos contos dele. Lembrou minhas aventuras de infância, na época em que eu jogava RPG , quando a imaginação não tinha limites. O cara tem futuro, recomendo! Vou deixar AQUI o link para vocês lerem parte do material que ele disponibilizou gratuitamente no seu site. Não se deixe enganar pela aparência do site, que precisa de uma modernizada :p
Para finalizar, segue um pequeno conto dele, do livro “O Portal” (livro só de contos curtos, pelo que entendi). Talvez o meu preferido, até agora. (Um recadinho para minha querida esposa: Amore, se você vai ler o conto a seguir, prepare-se para chorar ;)
A Zona do Crepúsculo (de L.F.Riesemberg)
Eric e o avô subiram a colina e observaram o horizonte. Era aquele momento do dia que precede a noite, quando o sol lança seus últimos raios sobre a cidade. O céu estava alaranjado e as nuvens ficavam multicoloridas, como gigantescos algodões doces de vários sabores.
-É verdade que existe um pote de ouro no fim do arco-íris, vovô?
O velhinho sorriu.
-Não, Eric. Não é verdade.
O menino ficou desapontado, pois queria acreditar nessa história.
-O pote de ouro fica na Zona do Crepúsculo. É este lugar para onde estamos olhando agora.
-Zona do Crepúsculo? Como assim, vô?
-Feche os olhos, meu neto.
O menino obedeceu.
-Agora abra e diga se alguma coisa mudou.
O menino reparou que as cores no céu estavam um pouco mais escuras. As nuvens já tinham mudado de forma. E o sol se encontrava um pouco mais escondido.
-Lá é uma terra mágica, Eric. E a nós só é dado o prazer de ver um tiquinho dela, assim bem de longe, durante poucos minutos do dia.
-Nossa, vô, deve ser muito bonito lá. Como é mesmo o nome?
-Zona do Crepúsculo. Havia uma série de televisão com esse nome, há muito tempo. Mas acho que eles nunca explicaram por que se chamava assim. Tive que descobrir por conta própria.
-Eu quero ir pra lá, vovô, e pegar o pote de ouro.
O velhinho riu e afagou os cabelos do garoto.
-Ouro é o menos importante por lá. Naquele lugar acontecem coisas além da imaginação. Há duendes, fadas, dinossauros, magos… tudo o que você sonhar.
Rapidamente a tela iluminada do horizonte ia sumindo, dando lugar a um céu negro.
-Viu como só conseguimos vê-la por poucos minutos, Eric? Não podemos desperdiçar essas oportunidades. Agora vamos, antes que seus pais fiquem preocupados.
Caminharam de mãos dadas e, mais tarde, despediram-se com um abraço.
Naquela noite Eric dormiu e teve sonhos agradáveis com um país mágico, onde era possível voar até as nuvens e tocar o céu. Lá o tempo parava o quanto você quisesse, e assim era possível ficar olhando o pôr do sol por horas. Havia no ar borboletas do tamanho de pássaros, que disputavam a atenção com os cavalos alados e os pterodátilos. Um rio de mel corria pelo lugar, com pequenas caravelas de chocolate navegando.
Quando sua mãe o chamou pela manhã, ele não quis acordar. A vontade era prolongar ao máximo aquela estadia na Zona do Crepúsculo, mesmo que imaginária, e sentiu-se triste por ter que voltar ao mundo real.
-Eu estava tendo um sonho tão bom, mãe…
Ela sorriu, mas respondeu com um ar grave:
-Desculpe, querido. É que preciso te contar uma coisa.
-O que, mãe?
-É o vovô… ele foi pro céu.
E esforçando-se para sorrir, ela deixou cair uma lágrima.
Eric lembrou-se do dia anterior, do momento em que o avô chegou para visitá-lo, até quando despediram-se, e de tudo o que conversaram.
-Não, mamãe. O vovô não está no céu. Ele foi para outro lugar…
Clique aqui para ler mais contos de L. F. Reisemberg.
* créditos da imagem do post: http://www.diamondprofitsolutions.com.au/patience-4-year-old/