Diálogo no Escuro: a experiência de perceber o mundo sem enxergar
Entrar em um ambiente completamente escuro e depender apenas dos outros sentidos pode parecer assustador, mas a experiência Diálogo no Escuro mostra que essa pode ser uma das formas mais profundas de compreender o mundo.

Quando imaginar o escuro era uma brincadeira
Quando criança, eu tinha uma brincadeira estranha: imaginar como seria não enxergar absolutamente nada.
Perder totalmente a visão.
Eu recriava esse cenário fechando completamente o quarto e apagando as luzes.
Surpreendentemente, a brincadeira era sempre muito legal, uma verdadeira aventura que ia dos seres fabulosos que eu imaginava até a paz do “silêncio” do escuro. Uma paz momentânea que reinava soberana, em contraste ao caos criado por uma criança de oito anos que divide o quarto com dois irmãos não menos endiabrados. No escuro, a imaginação ia às alturas. O imprevisível estava sempre a um palmo de distância. Ou seja:
a ideia da ausência de visão, algo assustador para um adulto, era fantástica na infância.
Reviver a experiência no Diálogo no Escuro
Felizmente pude reviver, junto com minha amada esposa Priscilla, essa experiência única. Estou falando do evento Diálogo no Escuro, que acontece no Museu Histórico Nacional até outubro. Fomos no último horário do domingo (29/5), às 16h45min. Entramos em um grupo com idosos, que apesar de tornar o percurso mais lento, expandiu ainda mais a experiência devido aos seus sábios comentários. Essa configuração aumentou ainda mais o desafio de mobilidade, que faz parte da situação como um todo. Foi necessária uma dose extra de paciência, o que acabou se tornando mais uma lição aprendida.
Como funciona a experiência
No evento, os participantes são conduzidos por uma pessoa com deficiência visual a um percurso completamente escuro (não dá para ver absolutamente nada!). É possível perceber, através dos demais sentidos, o ambiente que recria lugares ilustres do Rio de Janeiro. A inversão de papéis dá um tom muito interessante à experiência. Em vários momentos eu fiquei imaginando o que seria de mim se aquela fosse uma situação real e o nosso condutor sumisse de repente.
Foi um verdadeiro exercício de humildade e respeito.
Além de um exercício de comunicação. Em vários momentos ficou uma tremenda confusão, mas no final todos se ajudaram e conseguimos concluir o percurso. Tudo muito bem orientado pelos instrutores que são devidamente treinados para a ocasião. No final do percurso, rola um bate-papo muito interessante entre os participantes e o condutor. Várias questões podem ser esclarecidas e os participantes têm a oportunidade de tirar algumas dúvidas sobre a experiência.
Citarei alguns pontos interessantes que notei:
Primeiras sensações no escuro
Assim que entrei no percurso escuro, abri um sorriso de orelha a orelha, pois lembrei de o que descrevi no início do texto. Imaginei também como seria se uma pessoa tivesse medo e não soubesse lidar com isso. Fui informado que acontece com certa frequência. Qualquer pessoa que não se sinta bem é conduzida de volta à luz logo no início do percurso, afinal, nem todos se adaptam ao desconhecido.
Quando os sentidos se transformam
Ainda no início do percurso, percebi que eu estava com a cabeça direcionada um pouco para cima e eu a girava de um lado para o outro. Lembrei que já vi várias pessoas cegas fazendo esse movimento no cotidiano. Logo concluí que trata-se de um movimento natural de ‘sonar’ que é acionado quando estamos numa situação em que a audição torna-se mais importante. Achei isso bem curioso, pois foi completamente instintivo.
Cheiros, sons e imaginação
Em determinado momento o condutor nos falou que poderíamos cheirar algumas plantas aromáticas que estavam por lá no “Jardim Botânico”. Normalmente, tenho dificuldades de sentir o cheiro nas plantas, pois não estamos acostumados a treinar o nosso olfato no dia a dia. Na ocasião eu senti a explosão do aroma da arruda que peguei para cheirar. Adoro cozinhar e, portanto, imaginei como seria visitar um hortifruit nessas condições. Muito interessante como os nossos demais sentidos ficam aguçados numa situação como essa.
Pessoalmente, o evento me animou ainda mais para o protótipo de jogo que estou desenvolvendo. Trata-se de um áudio jogo para celulares, baseado naqueles antigos livros-jogos de aventura do início da era do RPG. Tentarei falar mais sobre esse jogo num post futuro.
Uma verdadeira aula de cidadania
Enfim, esses foram apenas alguns pontos que pude lembrar. Recomendo muito o passeio. Aprendi que esse tipo de limitação não deve ser visto como algo ruim para a sociedade. Temos que nos conscientizar que o espaço em que vivemos é composto de pessoas diversas. A normatividade que carregamos na nossa cultura não representa a todos. Os tempos mudaram. Deve haver espaço para todos. Para isso temos que cobrar cada vez mais dos nossos representantes ações que possibilitem espaços mais acessíveis.
Mais do que um evento experimental, trata-se de uma verdadeira aula de cidadania.
Curiosamente, aquela brincadeira de infância de imaginar o escuro acabou se transformando em uma das experiências mais marcantes da vida adulta.
PS:
- Gostaria de agradecer aos responsáveis por trazer esse evento para o Rio de Janeiro e ao Rogério, foi super simpático e atencioso com o nosso grupo.
- Obrigado também à nossa amiga Roberta, que indicou o evento.
- Os ingressos para o evento podem ser adquiridos no site Ingresso Rápido. Segue o link: https://www.ingressorapido.com.br/Evento.aspx?ID=46495
Atualização em 16 de março de 2026:
Este texto foi escrito logo após minha visita à exposição Diálogo no Escuro, no Museu Histórico Nacional. Anos depois, ao relê-lo, percebo como a experiência continua atual. A proposta da exposição, inverter papéis e explorar o mundo sem a visão, continua sendo uma poderosa forma de refletir sobre empatia, acessibilidade e convivência em uma sociedade diversa.
Referências: