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A morte da Filosofia

No ensino médio tive bons professores. Aliás, tive grandes professores a vida toda. São as pessoas por quem tenho mais admiração. Mas uma…

No ensino médio tive bons professores. Aliás, tive grandes professores a vida toda. São as pessoas por quem tenho mais admiração. Mas uma delas, não tão relevante na época e explicarei por quê, me veio à cabeça agora a pouco.

Os colegas da classe não gostavam dela. O motivo? Ela era feia. Deselegante se referir a alguém assim, eu sei. Era como as pessoas a viam, feia e esquisita. Pelo menos para o padrão da sociedade. Ela andava curvada e mancando, tinha olheiras profundas e estava sempre com um semblante cansado. Acredito que ninguém lembra dela a essa altura. Eu sim. Por quê? As aulas dela eram maravilhosas. Pelo menos eu achava. Na sua voz cansada havia uma paixão profunda pelo assunto que ensinava. Ela usava um livrinho verde de título: Filosofia. Só isso. Bem simples. Mas naquela leitura simples, difícil para a minha idade, havia conceitos que mudaram bastante a minha percepção sobre o mundo.

Aprendi sobre sobre coisas como subjetividade, a passagem do mito para o logos, cultura, dogmas, moral e outras coisas mais. Essas foram as que me vieram à cabeça agora. Nunca esquecerei como eu gostava daquela aula e os outros alunos odiavam. Ela tinha muita dificuldade para manter a atenção da turma. Era um falatório só na aula dela. Não prestavam atenção em nada do que ela dizia.

Mas lembro muito bem de como ela ficava feliz ao perceber eu estava atento a tudo que ela falava. Brotava um pequeno sorrizo naquele rosto amargurado pela vida. Chegava ao ponto que a aula era só entre nós dois. O tempo passou, me formei e fui esquecendo sobre muito do que aprendi.

Alguns anos depois descobri que ela era sozinha e infeliz. Se matou enforcada em casa. Sozinha. Sinto um vazio por nem lembrar o nome dela**. E hoje percebo a beleza naquela pessoa, por tudo o que aprendi. Mas nada disso parece importar. Quem liga para Filosofia?

Pq estou escrevendo sobre isso? Não sei exatamente. Talvez por viver em um momento onde as vidas parecem tão insignificantes. Talvez por quê estou com insonia nessa longa madrugada.

* O meu amigo de classe, Rogério Bezerra, leu essa estória achou o nome dela: Zadilva Simões. Fiquei feliz pelo nome ter aparecido. O ano foi 1999, se não me falha a memória.